Contexto do projeto de lei
Recentemente, a proposta de um projeto de lei em Itapetininga (SP) que visava diminuir a distância mínima exigida para a construção de edificações próximas a cursos d’água e rios gerou polêmica. A legislação municipal em vigor estipula que a área de proteção deve ser de 30 metros, uma medida tida como essencial para preservar a integridade ambiental das áreas ao redor desses corpos d’água.
Os autores do projeto, esperavam que a redução da faixa de proteção para apenas cinco metros na área urbana e cinco metros em estradas rurais, facilitasse a ocupação do solo. Este projeto foi apresentado no contexto da necessidade de urbanização e desenvolvimento, mas rapidamente passou a ser alvo de críticas intensas, especialmente por parte de especialistas em meio ambiente e do próprio setor jurídico da Câmara Municipal.
Consequências da redução na proteção
A proposta de reduzir as áreas de proteção levantou preocupações sérias sobre as suas implicações. A diminuição da faixa de proteção para construções em áreas próximas a rios e córregos pode resultar em graves impactos ambientais. A mais notável consequência seria a potencial degradação dos ecossistemas locais, que necessitam de áreas recomendadas de proteção para manter sua biodiversidade e a qualidade da água.

Além disso, a diminuição dessa área pode prejudicar a recuperação de áreas degradadas, uma exigência geralmente estabelecida pelo Código Florestal. Tal recuperação é vital para restaurar a vegetação nativa e ajudar nos processos naturais de filtragem de água e controle da erosão.
Reações do setor jurídico
O debate sobre a proposta foi acirrado, especialmente em relação às análises feitas pelo setor jurídico da Câmara. Os advogados municipais se opuseram à medida, argumentando que a proposta violaria os princípios legais de proteção ambiental. A avaliação crítica estabelecia que a diminuição da proteção legal poderia criar precedentes perigosos, permitindo o uso inadequado de áreas ambientalmente sensíveis.
Essas preocupações foram levadas em conta na formação de um parecer” e contribuíram significativamente para as decisões subsequentes dos vereadores a respeito do projeto.
A posição da Comissão de Meio Ambiente
A Comissão de Meio Ambiente da Câmara também se manifestou contrariamente ao projeto, reforçando seus argumentos com dados sobre a importância das áreas de preservação permanente. A Comissao enfatizou que as áreas de proteção não são apenas uma exigência legal, mas sim um pilar fundamental para a saúde ecológica da região.
A decisão da Comissão ajudou a moldar o entendimento do restante do corpo legislativo sobre a gravidade da proposta. A Comissão destacou que a preservação dos recursos hídricos é imprescindível para a qualidade de vida e a sustentabilidade do município.
Críticas de especialistas
Vários especialistas em meio ambiente criticaram duramente a proposta, chamando-a de “imprudente”. O engenheiro ambiental Vinicius Mori Válio, por exemplo, alertou que a proposta não apenas facilitaria construções em áreas degradadas, como também desconsideraria a necessidade de recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP), conforme estipulado no Código Florestal.
A crítica principal girou em torno do fato de que a nova legislação, ao permitir construções onde antes existia vegetação nativa, poderia perpetuar ou até mesmo agravar a degradação ambiental, transformando uma situação negativa em uma “vantagem” legal para novos desenvolvimentos.
Impactos na recuperação ambiental
Permitindo construções em áreas onde a vegetação já foi removida, o projeto se contrapunha aos objetivos de recuperação ambiental. Áreas como as mencionadas são vitais para a restauração dos habitats naturais e da biodiversidade.
Essas áreas de proteção são essenciais não apenas para a flora e fauna locais, mas também para regular a qualidade da água e prevenir inundações. A redução da proteção poderia comprometer diretamente esses serviços ecossistêmicos, que são fundamentais para a manutenção da saúde ambiental e a qualidade de vida da população local.
Histórico do projeto desde 2025
Desde que o projeto foi apresentado em agosto de 2025, ele passou por diversas etapas na Câmara Municipal, enfrentando resistência considerável desde o início. A proposta foi revisada e discutida em várias reuniões, com cada vez mais stakeholders, incluindo grupos ambientalistas e cidadãos, expressando suas preocupações.
Os vereadores autores da proposta – Gê de Araujo, Guilherme Morelli, Tatá Gaguinho e Uan Moreira – também se viram sob pressão à medida que as consequências da proposta se tornaram mais evidentes. Em janeiro de 2026, um dos vereadores (Moreira) já havia solicitado a retirada de sua assinatura do projeto, um reflexo da crescente desaprovação pública e jurante.
O papel dos vereadores no processo
Os vereadores de Itapetininga desempenharam um papel crítico no andamento do projeto. Por um lado, eles tinham a responsabilidade de considerar o desenvolvimento econômico e urbano da cidade; por outro, uma responsabilidade igual pela preservação dos recursos naturais.
A retirada do projeto de pauta, confirmada pelo vereador Gê de Araujo, representou um reconhecimento das seríssimas implicações que a medida poderia ter sobre o meio ambiente e a saúde pública. No fim das contas, os vereadores enfrentaram um dilema ético sobre quais interesses estavam realmente servindo com a proposta: o desenvolvimento ou a preservação.
Alternativas ao projeto proposto
Em resposta às preocupações expressas por ambientalistas e parte do público, surgiram sugestões alternativas que poderiam conciliar a ocupação do solo com a proteção ambiental. Entre as soluções discutidas estavam:
- Criação de Zoneamento Ecológico: Definir áreas específicas para construções, garantindo ao mesmo tempo a proteção de zonas críticas.
- Programas de Recuperação de Áreas Degradadas: Implementação de programas que asseguram a recuperação de áreas ambientalmente sensíveis, subsidiando projetos de replantio, por exemplo.
- Educação Ambiental: Sensibilização da comunidade sobre a importância da preservação dos recursos naturais.
Essas abordagens não apenas ajudariam a responder à demanda habitacional, mas também garantiriam que o município respeite seu patrimônio ambiental.
Próximos passos na Câmara Municipal
Para o futuro, a Câmara Municipal de Itapetininga deve se concentrar em desenvolver estratégias mais sustentáveis que equilibrem as necessidades de desenvolvimento urbano com a preservação do meio ambiente. A retirada do projeto atualmente, além de ser uma vitória para os defensores do meio ambiente, possibilita um espaço para discussão mais construtiva sobre como a cidade pode crescer de forma responsável.
Os próximos passos incluem a realização de audiências públicas e discussões, onde o governo municipal poderá ouvir diferentes stakeholders, como cidadãos, ambientalistas, e especialistas, a fim de forem encontradas soluções viáveis para o crescimento urbanístico que respeitem a natureza, garantindo assim um futuro melhor para todos.


